sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

# 522

Fotografia de Dani Vázquez


"Tiago acordou com o telefone a tocar. Não reconheceu logo o barulho e ainda demorou cerca de meio minuto a situar-se no espaço e no tempo. O espaço era a sua cama e o tempo era duas da tarde de um domingo de Março. Pegou no telefone e viu que era a tia Natália. 
Desde que se tinha separado de Raquel, como tinha também acontecido quando se tinha separado de Marta, telefonava-lhe com regularidade para saber como estava. Eram mais de trinta anos de muito carinho entre os dois e estavam sempre um para o outro quando era preciso. Mas desta vez foi um telefonema rápido. Tiago estava cansado da noitada que tinha tido, da dificuldade em adormecer depois, e das poucas horas de descanso que tinha tido. A sua vida estava um bocado confusa e não estava a ser fácil ultrapassar isso.  
Depois de se despedir da tia, com a promessa que a visitaria um dia destes, pegou no telemóvel, foi até à sala e deitou-se no sofá a olhar para o tecto… Recuou no tempo muitos anos e recordou a importância das suas tias no seu desenvolvimento como homem e como a pessoa que era. Especialmente a tia Natália, de um ponto de vista mais teórico, mas não só, e a tia Carolina, mais no lado prático da coisa. Muito do que tinha sido, como homem, e até como pessoa, enquanto adulto, devia-se a estas duas mulheres principalmente. Mas, havia que reconhecer, também às suas outras duas tias. Tudo se tinha desenvolvido a partir dum impulso que, como tinha já acontecido outras vezes, o tinha feito passar em casa de Natália depois de vir dum jantar perto da casa dela, fora de Lisboa, com amigos.
Lembrava-se como se tivesse sido ontem – como poderia algum dia esquecer? Primeiro dia de Julho de 89… Sábado, onze e tal da noite… Quase meia-noite… Tinha parado o carro na rua da vivenda da tia e saído. Havia bastante luz e ouvia-se a música cá fora. Fechara o carro e caminhava em direcção a casa, reconhecendo alguns carros que ali estavam estacionados como pertencentes a outros membros da família. Tinha dezanove anos na altura e Natália, que faria trinta e nove no fim do ano, era como se fosse uma mistura de segunda mãe e irmã mais velha."

in "A festa de lingerie da tia Natália"
 


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