"Tiago acordou com o telefone a tocar. Não
reconheceu logo o barulho e ainda demorou cerca de meio minuto a situar-se no
espaço e no tempo. O espaço era a sua cama e o tempo era duas da tarde de um
domingo de Março. Pegou no telefone e viu que era a tia Natália.
Desde que se tinha separado de Raquel, como
tinha também acontecido quando se tinha separado de Marta, telefonava-lhe com
regularidade para saber como estava. Eram mais de trinta anos de muito carinho
entre os dois e estavam sempre um para o outro quando era preciso. Mas desta
vez foi um telefonema rápido. Tiago estava cansado da noitada que tinha tido,
da dificuldade em adormecer depois, e das poucas horas de descanso que tinha
tido. A sua vida estava um bocado confusa e não estava a ser fácil ultrapassar
isso.
Depois de se despedir da tia, com a promessa que
a visitaria um dia destes, pegou no telemóvel, foi até à sala e deitou-se no
sofá a olhar para o tecto… Recuou no tempo muitos anos e recordou a importância
das suas tias no seu desenvolvimento como homem e como a pessoa que era.
Especialmente a tia Natália, de um ponto de vista mais teórico, mas não só, e a
tia Carolina, mais no lado prático da coisa. Muito do que tinha sido, como
homem, e até como pessoa, enquanto adulto, devia-se a estas duas mulheres
principalmente. Mas, havia que reconhecer, também às suas outras duas tias. Tudo
se tinha desenvolvido a partir dum impulso que, como tinha já acontecido outras
vezes, o tinha feito passar em casa de Natália depois de vir dum jantar perto
da casa dela, fora de Lisboa, com amigos.
Lembrava-se como se tivesse sido ontem – como
poderia algum dia esquecer? Primeiro dia de Julho de 89… Sábado, onze e tal da
noite… Quase meia-noite… Tinha parado o carro na rua da vivenda da tia e saído. Havia
bastante luz e ouvia-se a música cá fora. Fechara o carro e caminhava em direcção
a casa, reconhecendo alguns carros que ali estavam estacionados como pertencentes
a outros membros da família. Tinha dezanove anos na altura e Natália, que faria
trinta e nove no fim do ano, era como se fosse uma mistura de segunda mãe e
irmã mais velha."
in "A festa de lingerie da tia Natália"

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