"Enquanto arruma a cozinha da loiça do jantar, Tiago
tenta decidir se sai ou não… É sábado, já um pouco tarde, e está uma noite de
Verão muito agradável. Ligeiramente quente até! Não lhe apetece muito sair mas
também não lhe apetece ficar em casa numa noite assim. É nesta dúvida
existencial que o telemóvel se faz ouvir…
Pega no telemóvel e vê que é Diogo que lhe liga…
Atende!
Diz que foi ver o Sporting com um amigo e foram
tomar um copo mas o amigo vai embora e não lhe apetece ir já para casa. Foi por
isso que ligou…
“Estás onde?”, pergunta Tiago.
“Em Telheiras, no Lizarran…”
Diogo trabalha no ginásio há uns cinco anos…
Talvez seis! Não se pode dizer que seja um amigo, como é o Miguel ou o Pedro,
mas é uma pessoa com quem se relaciona bem. Ambos são sportinguistas e vão aos
jogos juntos algumas vezes. E aos copos… Pode-se dizer que é uma boa companhia
para este tipo de coisas. Mas as coisas sempre ficaram por este nível… Nem sabe
bem dizer porquê!
A maior parte do pessoal do ginásio, e da escola,
poucas vezes alinhava em saídas noite dentro. Ou simplesmente não tinham
permissão – pelas companheiras – para sair para beber. Por isso, o Diogo era frequentemente
um dos do “grupo dos copos”. A maioria dos colegas do ginásio ou,
principalmente, da escola, eram casados e numa faixa etária mais próxima da de
Tiago, e embora Diogo também fosse casado, ainda que bem mais novo – tinha
feito 30 anos há pouco tempo – sempre arranjava tempo para sair para tomar uma
cerveja. Era casado com Ana há uns quatro anos. Tinha ido ao casamento mas já
não se lembrava bem… Ana era professora de ténis e tinha apenas vinte e quatro
anos. Devia ter uns vinte quando se casaram. Na altura tinha achado que eram jovens
demais para se casar, especialmente ela, mas pareciam tão apaixonados…
Provavelmente ambos sentiram que era o correcto. O Amor tem destas coisas… e
ele, infelizmente, sabia isso muito bem!
“Ok! Já vou ter contigo. Dá-me uns quinze
minutos…”
Tiago achava estranho que Diogo sempre conseguisse
encontrar tempo para sair para tomar uma cerveja… Ou cinco ou seis. Tinha
certeza que a mulher dele não gostava disso. Ou talvez ela nem soubesse… Na realidade,
sabia perfeitamente que, ou ela não sabia, ou ela não gostava, pois ele sempre
falava sobre seus queixumes e as suas criticas… mas, mesmo assim, era muitas
vezes ele a desafiar os outros para saírem. Ultimamente, talvez nos últimos
dois anos, Tiago perguntava-se por que eles ainda estariam casados. Não que
alguma vez os tivesse visto a discutir, ou algo do género mas raramente os via
juntos. Imaginava que ele a tolerava porque ela estava tão em forma. Ela tinha
uma figura espectacular. Presumia que o sexo devia ser bom demais para ele
deixá-la. Ela também ganhava um bom dinheiro em seu trabalho e com alguma
publicidade que fazia – era modelo em part-time.
Diogo, por outro lado, não ganhava tão bem. Só tinha o trabalho do ginásio e
nem sequer tinha o seu nível de ordenado ou o de Miguel. Enfim, dava para viver
com algumas limitações mas achava que era o sexo e a segurança monetária que
Ana lhe dava que mantinham o casamento."
in "Ninguém é de ferro... e há coisas básicas na vida!"





